Para mim, o céu era da dor dos judeus.
Quando seus corpos acabavam de vasculhar a porta em busca de frestas, as almas subiam. Depois suas unhas arranharem a madeira e, em alguns casos, ficarem cravadas nela, pela pura força do desespero, seus espíritos vinham em minha direção, para meus braços, e galgávamos as instalações daqueles chuveiros, escalávamos o telhado e subíamos para a largueza segura da eternidade. E continuam a me alimentar. Minuto após minuto. Chuveiro após chuveiro.
[...] Com o correr do tempo, também passei a pegá-los no fundo do grande penhasco, onde suas fugas acabavam terrivelmente mal. Havia corpos quebrados e meigos corações mortos. Ainda assim, era melhor do que o gás. Alguns deles eu apanhava ainda a meio caminho da descida. Salvei você, pensava comigo mesma, segurando suas almas no ar, enquanto o resto de seu ser - suas carniças físicas - despencava na terra.
[...]
Deus.
Sempre pronuncio esse nome, ao pensar naquilo.
Deus.
Duas vezes, eu repito.
Digo o nome d'Ele na vã tentativa de compreender. "Mas não é a sua função compreender." Essa sou eu respondendo. Deus nunca diz nada. Você acha que é a única pessoa a quem Ele nunca responde? "Sua tarefa é..." E eu paro de escutar, porque, para dizê-lo curto e grosso, eu canso a mim mesma. Quando começo a pensar daquele jeito, fico inteiramente exausta e não tenho o luxo de me entregar a fadiga. Sou obrigada a continuar, porque, embora isso não se aplique a todas as pessoas da Terra, é verdade para a vasta meioria: a morte não espera por ninguém - e, quando espera, em geral não é por muito tempo.
Em 23 de junho de 1942, havia um grupo de judeus franceses numa prisão alemã, em solo polonês. A primeira pessoa que peguei estava perto da porta com a mente em disparada, depois reduzia a passadas, depois mais lenta, mais lenta...
Por favor, acredite quando lhe digo que, naquele dia, peguei cada alma como se fosse um recém-nascido. Cheguei até a beijar alguns rostos exaustos, envenenados. Ouvi seus últimos gritos entrecortados. Suas palavras evanescentes. Observei suas visões de amor e os libertei de seu medo.
A todos levei embora e, se houve um momento em que precisei de distração, foi esse. Em completa desolação, olhei para o mundo lá encima. Vi o céu transformar-se de prata em cinza e em cor de chuva. Até as nuvens tentavam fugir.
Vez por outra, eu imaginava como seria tudo acima daquelas nuvens, sabendo, sem sombra de dúvida, que o Sol era louro e a atmosfera interminável era um gigantesco olho azul.
Eles eram franceses, eram judeus, e eram você.
A menina que roubava livros, Markus Zusak
já li, muito bom
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