terça-feira, 9 de março de 2010

Inferno

"- Ás três! Me acorde as três em ponto.

Um segundo depois ela ouviu que ele respirava com regularidade, e ficou a escutar, e nem percebeu que estava a sorrir de felicidade por tê-lo ao seu lado por algumas horas, dormindo sem segurança. Sentou-se muito calma nos pés da cama, protegendo o seu sono.
Agora só tinha um desejo, que ele estivesse protegido e sossegado. Era como uma mãe, sentada no leito do filho, a proteger seu sono, com terno carinho, com um carinho proveniente do profundo conhecimento de que a única coisa que importa é a felicidade de seu filho. Nessas, horas em que se encontrava tão perto dele, e ao mesmo tempo tão longe, morreria por ele sem hesitar e sem pesar, se sua morte servisse para salvá-lo. É estranho, pensou ela, que justamente eu, que sempre amei tanto a vida, renunciasse a ela. Então lembrou-se, de repente, que há anos, quando andava escondida numa floresta da Polônia, à espera de que ele voltasse, já tivera o mesmo pensamento de deixar alegremente a vida, se isso significasse a segurança dele. Será amor - perguntou a si própria, - esta abnegação, essa disposição de renunciar a qualquer desejo pessoal? Um sorriso se esboçou em seu rosto, e ela sorri ainda, quando, dez minutos antes da hora em que devia acordá-lo, Simon virou-se na cama, curvou-se sobre ela e beijou-a.

- Anne... Anne... Ah, se eu pudesse tê-la sempre assim nos meus braços!..

Depois que ele se esqueirou do quarto, Anne ficou ainda acordada por muito tempo; sentia ainda o calor que o corpo de Simon deixara no leito. Enquanto se conservou esse calor, ela teve a impressão de estar ao seu lado, mas quando o calor desapareceu, só restou o ruído das gotas de chuva batendo nas vidraças."

Esse livro me mudou, o Inferno me mudou. Agora, nesse livro com capa grossa, azul e com uma rosa dourada não me assusta.  Agora compreendo coisas do outro lado do inferno e nele, Katrin Rolland, expôs nas páginas amarelas: Simon e Anne.

“Quero pedir-lhe desculpas por não ter acreditado que um homem seja capaz de abandonar a vida, num momento de irreflexão, ou sacrifica-la por seus amigos, numa crise de desespero, ou amar uma mulher com tanto ardor, que a vida sem ela nada signifique para ele.”

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